• Karla Kratschmer

Quem são as Cinderelas do século XXI?

Atualizado: 1 de Nov de 2018



Era uma vez na China, uma órfã chamada Ye Xian, que tinha como único amigo um grande peixe dourado. Um dia sua madrasta má e invejosa o assou e comeu, a fim de que Ye Xian não tivesse em sua vida nenhuma alegria.

Avisada por um feiticeiro de que os ossinhos do peixe eram mágicos e poderia realizar pedidos, Ye Xian os guardou.


Quando chegou o Festival da Primavera e sua madrasta a proibiu de participar a menina foi pedir ajuda aos ossinhos e “como num passe de mágica, os restos mortais do peixe cobriram-na com um maravilhoso vestido azul e um glamoroso manto de penas. Os minúsculos pezinhos de Ye Xian receberam os sapatos mais lindos que ela já havia visto, feitos de ouro.”.

No festival, com medo de ser descoberta – já que todas as atenções estavam voltadas para ela –, Ye Xian saiu as pressas deixando cair um dos sapatos, que foi parar nas mãos de um “guerreiro valoroso, que se encantou por seu tamanhinho e resolveu sair em busca de sua dona.”.

O desfecho é previsível, certo? Ao encontrá-la vestida em trapos o guerreiro ficou surpreso, mas logo percebeu que se tratava da moça “mais bonita do condado”; e os dois se casaram.


Há inúmeras variações dos contos de fadas, não é diferente com Cinderela, e Karin Hueck nos apresenta vários deles de maneira minuciosa em seu livro ‘O lado sombrio dos contos de fadas’, cujas histórias foram coletadas na Alemanha – Karin se mudou para lá para coletá-las –, e essa que você acaba de ler é a variação chinesa anotada por volta de 850 d.C.

Karin enfatiza que cada época e lugar molda a narrativa clássica à sua maneira, e foi a história chinesa que provavelmente introduziu ao enredo o sapatinho perdido e a dona de pés pequenos. Só que o costume que levou à essa introdução não era nada bonito, pelo contrário, bastante violento; “isso se deve a um motivo cultural: no século 6°, a dinastia Tang definiu que uma valorosa e nobre mulher chinesa teria os menores pés possíveis e inventou a prática de amarrá-los. O negócio era violento. Por volta dos 3 anos, os dedos dos pés das menininhas eram quebrados e amarrados com faixas apertadas para que jamais crescessem – um pé ideal não deveria ter mais de 8 centímetros de comprimento –, o que as deixava aleijadas e impossibilitadas de se locomover normalmente para o resto da vida. O costume sobreviveu até o século 20 e em quase todas as versões de Cinderela também: na edição dos irmãos Grimm, as irmãs malvadas mutilam os próprios pés – uma corta os dedos e a outra, o calcanhar - para o sapatinho encaixar em suas não tão delicadas extremidades.”. [1]

Sim, essa tradição existiu e era conhecida como Pés de lótus; que se tornou um padrão de beleza e sinônimo de status na China; “mulheres de famílias ricas, que não precisavam de seus pés para trabalhar, poderiam os manter amarrados.”. [2]


E hoje, onde estão as Cinderelas?


Em maio de 2016 a suspensão de uma recepcionista em uma empresa de Londres, depois de se recusar a usar saltos altos, gerou polêmica e debates.

Nicola Thorp de 27 anos foi contratada em regime temporário na empresa PwC, e seus empregadores disseram que ela teria de usar sapatos com salto de "5 a 10 centímetros" de altura. Nicola afirma ter dito a eles que consideraria (a exigência) justa se explicassem por que usar sapatos sem salto prejudicaria a realização do seu trabalho, mas eles não explicaram; "eles queriam que eu fizesse um turno de nove horas de pé levando clientes para salas de reuniões. Respondi que simplesmente não conseguiria fazer isso de salto alto.". [3]


Em outubro do mesmo ano, a foto dos pés de uma garçonete canadense sangrando ao lado do scarpin que ela era obrigada a usar diariamente, viralizou nas redes. Segundo a amiga “a garçonete chegou a perder uma unha e ainda foi repreendida pelo gerente porque estava usando outro tipo de calçado enquanto o pé sarava.”. [4]


Em 2017, após a denúncia de Nicola Thorp, “a investigação de um grupo de parlamentares concluiu que algumas empresas britânicas adotam um código sexista, obrigando as mulheres a usar salto alto no trabalho – além de maquiagem específica e roupas que valorizam as formas do corpo.”. [5]


Frequentemente essas exigências estão atreladas à uma crença de que o uso de salto alto passa mais segurança e elegância; e muitas vezes, apesar de extremamente desconfortáveis mulheres acabam optando pelo uso de saltos altíssimos, pelo mesmo motivo.

Podemos dizer que se tornou um padrão de beleza e sinônimo de status?

Karla Kratschmer | Psicóloga – CRP 06/121815

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Fontes consultadas:

[1] Livro O LADO SOMBRIO DOS CONTOS DE FADAS – Karin Hueck

[2] WIKIPEDIA

[3] BBC

[4] MDEMULHER

[5] G1

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